Ao andar pelas ruas tinha a impressão de ir em rumo ao infinito. Não fossem os velhos neons fracamente fixados nas paredes encardidas e das fracas luzes amareladas vindas das janelas de alguns apartamentos, não se poderia ver muita coisa. A escuridão era imperativa. Alguns caminhantes com passes errantes cruzavam seu caminho, tão indiferentes a tudo que mal pareciam humanos. Talvez estivem regressando de algumas das festas que se podiam ver anunciadas nos cartazes grotescamente elaborados fixados nos postes. Aquelas não eram distrações que lhe animavam nunca.
Os passos errantes quase denunciavam uma falta de rumo. A busca por aquilo que não se sabia o quê tornou-se parte do seu presente. Aquela noite escura e fria, molhada, tornava aquela marcha um lamento, uma angustiante jornada repleta de incertezas das quais a resposta talvez nem estivesse mais ao seu alcance. Tornou-se, portanto, naquele instante, um errante por completo, um objeto ordinário em movimento retilíneo incontrolável pelo espaço.
Um pouco mais adiante parou, virou-se. Na sua frente, cintilava uma tela. Alguns personagens encenavam diante de uma paisagem jamais vista, sentida. Sob um sol gordo os pássaros pareciam chamar o verão. Ali deram as mãos e sentaram perto do rio sobre a grama recém cortada a apreciar o último resquício de luz do sol desaparecer. A noite quente vinha enquanto cantavam.
Voltou à sua realidade num sopro de vento gelado em seu rosto que lhe bateu quase como um soco. Tonto, talvez entorpecido pela cena delirante, buscava recompor-se para reassumir o seu destino. A poucos metros dali estava o prédio verde-pastel e de arquitetura enfadonha onde ficava seu apartamento. O elevador quebrado ainda lhe concederia tempo de ficar mergulhado naqueles pensamentos atormentados a ser fruído numa agonizante ascensão de sete andares.
