Acordou de súbito, levantou o olhar e olhou a janela. Luzes tímidas atravessavam a cortina fina, iam e voltavam claras e vermelhas denunciando que ainda havia vida lá fora. Decidiu se levantar, olhou pela janela e percebeu que não fazia isso há semanas. Ora, não haviam muitas razões pra isso. A monotonia estava lá fora e poderia esperar por mais algumas semanas até ser consultada outra vez, nada mudava. A semana havia sido de muito trabalho e não houve tempo para descanso até aquele dia. Consultou o relógio, a forte luz vermelha do visor embaçava a vista, mas lá estava mostrando que eram meia noite e trinta e quatro. Ainda faltava muito até o dia amanhecer, não que isso o animasse nestes tempos, afinal, outra rotina monótona lhe aguardava em algumas horas. Foi na cozinha, abriu a geladeira, pegou a água e sentou à mesa, reflexivo. Que mundo é esse!, pensou. Não recordava-se da última vez em que teve um contato humano, afetivo, pelo menos. Os entregadores não contam. Aqueles filhos da mãe parecem ser robôs, não interagem e não possuem sentimentos. Sentia falta, mas não sabia do quê. Ainda à mesa, mais um copo de água e sentimentos que não sabia explicar de ondem vinham. Faltava-lhe algo.
Pensou em tempos atrás, uma vida que não viveu, mas sabia que existiu por histórias lidas na e-Magazine. Viu abraços, viu pessoas sentadas à mesas uma do lado da outra, viu o sol no rosto delas, viu o vento. Viu aquilo que não se pode ver, mas que pra sua realidade aquilo parecia muito com um conto, algo que não podia ter acontecido. O que lhe restava era um cubo de três por três a sessenta metros do solo. Ele poderia sentir-se um privilegiado, muitos poderiam ter vidas piores do que a sua. O trabalho, este tomava a maior parte do seu tempo. Sentava-se, ali mesmo no cubo, de frente a uma tela azul e desenvolvia o seu ofício. Ali o tempo sempre era curto, mas o que lhe restava de vida parecia não ter fim. Sentia-se cansado daquilo.
Levantou-se sem pressa, voltou a garrafa pra geladeira, olhou pro relógio e era meia noite e quarenta e três. Olhou pro teto como se buscasse ver as estrelas. Será que ainda estão lá? Não sabia. Quis voltar pra sua cama, mas não sem antes conferir o exterior mais uma vez, poderia ser a última nas várias semanas que se seguiriam. Mais uma vez reparou nos movimentos robóticos que se repetiam freneticamente, indo e vindo infinitamente. Voltou à cama, deitou-se de lado e seus olhos procuravam enxergar além daquilo que se chamava vida. Numa última tentativa de pensamento reflexivo antes do sono profundo, buscou orientá-lo para um sonho em busca daquilo que lhe faltava. Não sabia o que era. Podia ser que aquilo não existisse, não fosse real, não fosse nada além do próprio sonho.
