Deitado no sofá com as pernas esticadas, olhar fixo no teto, pensamento distante, uma força descomunal o mantinha preso naquele instante. Lá fora, chuva, frio e um vento lancinante que uivava ao atingir a janela. O peito pesado lhe puxava pra baixo com força lhe tirando o ar dos pulmões. As horas passam e os sussurrares uivantes vão ficando distantes, mais agudos, tonando-lhe incapaz de qualquer coisa que ainda lhe restava. Mergulhava em meio ao nada, entregava-se à entropia, disponibilizava-se ao caos. O que lhe importava a chuva? O que lhe importava o vento? Se não estava lá para ver, para sentir, que sentido fazia a sua existência? Poucou lhe importava. O sumiço da sua existência poria fim a tantas angustias, tantos maus sentimentos que aquilo lhe parecia uma generosa dádiva.
Porém, ao fundo, parecia haver algo ainda. Um ruído contínuo, fraco e distante, que teimosamente insistia em pulsar em frequência firme. Aos poucos aquela flâmula tornava-se mais e mais presente denunciando um sopro de vida que teimava em concluir-se. Com passadas constantes os pulsares tornavam-se cada vez mais presentes. Sons de pálidos discusos sobre ritmos metálicos entranhavam-se aos pulsos que ficavam em segundo plano. Perdido nesse caos, surgia-lhe um som de riso que mais lhe assemelhava a um deboche.
Grito. Rasgava-lhe a garganta profundamente. Nesse instante entendia que não chegara a sua hora, por mais que isso lhe agradasse. O sorriso da morte atirava-lhe de volta à sua desgraça. Respirava fundo ofegantemente tentando entender o que se passou. Levantou-se cabaleante até o banheiro, debruçou-se sobre a pia e jogou montes de água gelada em seu rosto. Virou-se à janela. Abriu-a e recebeu uma lufada de vento gelado em seu rosto já açoitado pela água do banheiro da última cena. Percebeu-se vivo e imerso de volta a sua desgraça. Foi um sonho que lhe trouxe o sabor da finitude. Ao perceber, poderia deliciar-se com a ausência de si no mundo. Poderia voltar ao sono e flertar novamente com aquela experiência, e o fez. Deitado novamente, pernas esticadas, fechou os olhos para o mundo abrindo-os aos pensamentos e sonhos que poderiam levar-lhe para eventos distantes.
Inspirado na música Speak to me de Pink Floyd.



